Quinta-Feira,�21 deSetembro,�2017

G20 dá última oportunidade à zona euro

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A zona euro tem 5 dias para por a casa em ordem. Se não, o FMI assumirá maior protagonismo na próxima cimeira do grupo dos 20 em Cannes a 3 e 4 de novembro.


Por
Jorge Nascimento Rodrigues

Os ministros das Finanças e banqueiros centrais do G20 colocaram o tema "crise europeia" à cabeça do comunicado de 8 pontos no final da reunião de Paris no sábado passado (15 de outubro). O G20 é o grupo mundial que abarca as principais potências desenvolvidas e emergentes e que praticamente eclipsou da cena geopolítica mundial o G7 (o grupo formado pelos Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá, a que se juntara em anos recentes a Rússia).

No segundo ponto do comunicado, o G20 dá uma oportunidade à zona euro até à cimeira europeia de 23 de outubro (próximo sábado) para apresentar "um plano abrangente" que lide "decisivamente" com os "desafios em curso". A Reuters titulou mesmo um seu despacho, no sábado, com palavras muito diretas: "G20 diz à zona euro para resolver a crise da dívida em 8 dias".

No fundo, os ministros e banqueiros centrais do resto dos 20 esperam que os europeus "implementem" as decisões tomadas a 21 de julho na cimeira europeia que ficou célebre pelo alargamento das funções do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), em que repousam as esperanças de conseguir evitar "contágios" (leia-se empurrar Itália e Espanha para o remoinho dos mercados financeiros até final do ano, evitar que a Bélgica se queime e a França e a Áustria percam a notação de crédito de triplo A e entrem em plano inclinado).

A oportunidade geopolítica do FMI


Se a cimeira falhar - recorde-se que Ângela Merkel disse, recentemente, que "não há soluções milagrosas" -, uma parte importante do G20 pretende dar ao Fundo Monetário Internacional (FMI) um papel liderante em todo este processo. A sua diretora-geral, Christine Lagarde, já o havia sugerido, na última reunião do FMI em 23 e 24 de setembro em Washington DC. Alguns gurus defendem o reforço do papel do FMI - como Raghuram Rajan, professor de Finanças na Booth School da Universidade de Chicago, num artigo sindicado publicado na edição deste sábado do Expresso.

O FMI, se a oportunidade ocorrer, aproveitará o momento, o que significará mais uma machadada no peso geopolítico da Europa. A favor deste protagonismo do FMI estão já, naturalmente, as potências emergentes - contra, por ora, os EUA, a Alemanha, a Austrália e o Canadá, segundo referiram a Reuters e a Eurointelligence.

Um papel acrescido do FMI implicaria mais fundos e para tal as potências emergentes pretendem ver concluída a reforma das quotas dentro da instituição decidida em 2010 e o alargamento do "cabaz" de divisas (por ora restringido ao dólar, euro, iene e libra) que suporta a moeda virtual do FMI, os direitos especiais de saque (SDR, no acrónimo em inglês), ainda que essa revisão esteja só prevista para 2015.

Tendo em consideração o caldeirão de contradições que é a Europa (entre os seus membros, entre dignitários das instituições europeias, entre a banca privada e os políticos, entre os banqueiros centrais entre si e com os políticos, entre eleitorados com interesses contraditórios em pequenos e grandes países) e o tempo que leva a concretizar decisões (a das novas funções do FEEF levou 3 meses até à recente votação parlamentar em Bratislava, na Eslováquia, a última dos 27 membros da UE), o comunicado do G20 apela ao FMI para considerar "novas formas de fornecer, caso a caso, liquidez de curto prazo para os países enfrentando choque exógenos, incluindo sistémicos" e apresentar propostas concretas na cimeira do G20 em Cannes em 3 e 4 de novembro.

Christine Lagarde afirmou, este fim de semana, que o FMI tem um leque de opções à sua disposição, e que tem dinheiro para tal. Uma das opções é uma linha de crédito flexível, uma facilidade financeiro criada em março de 2009. O México, Polónia e Colômbia recorreram a ela. Outro instrumento é a linha de crédito de precaução, que poderá permitir a um país beneficiar até 1000% da sua quota no FMI.

Sistema bancário em alerta vermelho


O outro ponto crítico que o G20 abordou foi a questão da situação do sistema bancário. A probabilidade elevada de um default seletivo da Grécia até final do ano e de uma cascata de efeitos sobre os investidores privados internacionais (sem contar neste rol os bancos gregos e cipriotas, a troika formada pelo BCE, FMI, União Europeia e os empréstimos europeus bilaterais) assusta os mercados financeiros.

Os investidores privados internacionais detêm 36,4% da dívida grega - €125,9 mil milhões. Este fim de semana alvitrou-se que o presidente do Deutsche Bank. Josef Ackermann, que é também presidente do lóbi bancário mundial Institute for International Finance, estaria a negociar um "corte de cabelo" (hair cut, na designação técnica) de 50% da dívida grega aos privados.

O processo poderá, depois, colocar em linha a reestruturação seletiva de outras dívidas soberanas e desencadear vários eventos de crédito no mercado dos credit default swaps (cds) e de financiamento das dívidas soberanas, bem como no sistema bancário mundial exposto às dívidas soberanas europeias. A "cauda longa" desta exposição é desconhecida e - como o Dexia franco-belga e o Erste Group austríaco revelam - pode ser muito mais "gorda" do que se julga.

No entanto, a exposição líquida atual (dados de 30 de setembro) em contratos de cds de instituições financeiras expostas à dívida grega é baixa, de cerca de 3,74 mil milhões de dólares, inferior ao caso irlandês que é de 4,18 mil milhões e ao português que é de 5,56 mil milhões, segundo dados da Depository Trust and Clearing Corporation. As exposições líquidas às dívidas soberanas belga e austríaca são superiores a 6 mil milhões em cada caso. Os valores líquidos com significado dizem respeito a Itália (mais de 21,5 mil milhões) e Espanha (mais de 17 mil milhões).

Por tudo isso, o G20 pretende que "os bancos estejam adequadamente capitalizados e tenham acesso suficiente a financiamentos para lidar com os riscos atuais". Um dos planos aguardados é, naturalmente, o de recapitalização da banca europeia, cujos cálculos variam entre €192-228 mil milhões (segundo um estudo de Constantin Gurdgiev, professor do Trinity College em Dublin, referido ao Expresso) e €275 mil milhões, segundo contas do Morgan Stanley divulgadas pelo Financial Times.

Mas o G20 não se fica por essa intervenção de curto prazo - reclamada, desde setembro, por Christine Lagarde. Aponta a questão crítica da "reforma do sector financeiro", em que dois pontos são referidos: os mercados de derivados e a redução dos riscos colocados pelas instituições financeiras consideradas "sistemicamente importantes" (mais um acrónimo inventado, o dos SIFIs - systemically important financial institutions). Entre as medidas que poderão desagradar ainda mais aos banqueiros privados está um adicional de 1 a 2,5% para além dos 7% de rácio de capital mínimo a exigir aos bancos de grande dimensão. O que, no concreto, significará "grande banco" está em discussão - fala-se em 28 bancos nesse rol mundial, mas o G20 poderá aumentar o número para 50, segundo a Reuters. A lista deverá ser apresentada pelo Financial Stability Board, presidido por Mario Draghi (que a partir de 1 de novembro assumirá a presidência do Banco Central Europeu), ainda antes da cimeira do G20.

Ainda recentemente, a agência de notação Fitch referia a vulnerabilidade dos modelos de negócio dos bancos que designou como "bancos globais universais".

O temor do triple-dip


Finalmente, o G20 aborda o problema dos desequilíbrios mundiais na ótica que o economista John Maynard Keynes colocava há décadas atrás. Uma estratégia decisiva contra a crise financeira e económica não pode ser colocada só nos ombros dos países com défices comerciais e orçamentais, etiquetados como os maus da fita, ou porque importam em demasia ou porque se endividam de mais.

Os países avançados e emergentes com excedentes nas suas balanças têm de entrar em campo, frisa, claramente, o comunicado dos ministros das Finanças e banqueiros do G20. De contrário, corremos o risco do que o Lorde Robert Skidelsky, o guardião inglês da memória de Keynes, já batizou de triple-dip - uma dupla recaída, numa nova recessão nos países desenvolvidos (o que tem sido batizado de double-dip) associada a um regresso ao pânico financeiro.



 


Jorge Nascimento Rodrigues é editor de www.gurusonline.tv, www.janelanaweb.com e geoscopio.tv. É igualmente Editor Executivo da Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão e colaborador do semanário Expresso.

History Research: Pioneers of Globalization (http://www.centroatl.pt/globalization/)

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Este comentário foi originalmente publicado no Expresso Online dia 17 de Outubro 2011

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