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Terça-Feira,�26 deSetembro,�2017

O grande conselho fiscal

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Por Fernando Braga de Matos*

(Onde o autor continua a propor que se desconfie dos políticos que atacam os veredictos dos mercados sobre as suas políticas, pois o que se passa, normalmente, é serem estes a ter razão e os agentes políticos aí encontrarem oportuno bode expiatório para os seus erros - os quais, no final, são pagos pelos contribuintes e não pelos mesmos, enquanto que, com os investidores e especuladores, são eles próprios a perder pelos seus erros).

Nada como uma boa história para ilustrar um ponto de vista, mesmo se muito resumida e melhor contada por outros (vg, Krugman), e a que vai adiante dava seguramente para tema de um "thriller":

De 1979 aos princípios dos anos 90 do século passado, 11 dos 15 membros da EU/CEE estabeleceram o Sistema Monetário Europeu, precursor da União Monetária Europeia e do euro, destinado a evitar a instabilidade cambial nas relações comerciais mútuas. Realmente, após o óbito de Brenton Woods e o último suspiro do ouro como padrão indirecto para as divisas, via dólar, a instabilidade cambial tornou-se regra, com o consequente prejuízo para as relações comerciais, perturbadas pela instabilidade do valor dos pagamentos. Aqueles Estados europeus decidiram, pois, criar um oásis no meio da balbúrdia mundial, um sistema que produzisse imunidade quanto às variações cambiais no seu já definido espaço económico. Basicamente, tratava-se de deixar oscilar as moedas aderentes dentro de estreitas bandas (2,25%, a curta; 6%, a larga), o que, na prática, equivaleu a fazê-lo à volta do marco alemão, a moeda mais sólida, dados os estatutos e performance de estabilidade do Bundesbank, ao mesmo tempo que se criava uma unidade monetária meramente escritural, o ECU, a olear as transacções entre países. Transpostos os limites da banda, os bancos centrais interviriam no mercado, vendendo ou comprando divisas conforme as situações, e toda a gente viveria feliz.

Ora, por 1992, o Reino Unido, acabado de aderir ao esquema, encontrava-se com uma economia recessiva e tomada pela inflação, logo dessincronizada com a dos principais aderentes do clube, nomeadamente a Alemanha, a digerir a RDA comunista sem Alka Seltzer. Com taxas de juro bem mais baixas que as alemãs e francesas, nomeadamente, a libra encontrava-se sobrevalorizada, mas John Major, primeiro-ministro conservador, decidiu defendê-la, com declarações públicas de bravado para os resmungos alemães. Seguindo os fundamentais macro-económicos, como têm que fazer os especuladores ganhantes, apareceram nos "Forex" massivas ordens de venda de esterlino, cobertas e descobertas, aqui sobressaindo o famoso George Soros. Enquanto Major e o seu ministro das Finanças vociferavam contra os "ataques" especulativos dos mercados, como fazem os políticos incompetentes que persistem nos erros (que saudades de Sócrates que, nesse assunto, era um campeão, ao ponto de meter o patriotismo pelo meio, e a quem desejo uma longuíssima estadia em França, ou qualquer outro país estrangeiro, de preferência mais longínquo). Esta história é mais conhecida que os dinossauros, mas é bom lembrar que, no final, Soros ganhou 1 bilião, os restantes especuladores em conjunto vários biliões, Major "ficou em casa", mas os contribuintes britânicos lá tiveram que arrostar com uma conta desmesurada. Ah! No final do processo, que ainda durou um ano, todo o sistema foi para as urtigas, e isso porque os mercados é que tinham razão.

As pessoas mais distraídas, induzidas pelos títulos dos média, tendem a julgar que os mercados são entidades maléficas enxameadas de vilãos, imbuídos dos mais condenáveis propósitos para destruir a riqueza das nações e o bom nome da gente que nos governa. Ora, por lá andam fundos soberanos, fundos de pensões, fundos de investimento, para além dos especuladores que exercem a função fundamental de lhes dar liquidez, a qualidade fundamental de um mercado perfeito. Esta gente ou investe bem, isto é, de acordo com os fundamentais da economia, ou vai perdendo até mudar de profissão. No fundo, o grande escrutínio que os mercados exercem em sintonia com a verdade económica, torna-os os fiscalizadores das políticas macro - económicas dos países (desde que dotados de liquidez e informação que os imunize contra manipulações). Não têm partidos, nem ideologias, nem favoritos. E a instabilidade de que muitas vezes padecem, na sua complexidade, advém, também, dos humores e frustrações de políticos incapazes e desbocados. Como o sr. John Major, o nosso herói do dia.

 

 

* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar


Publicado no Jornal de Negócios dia 18 de Novembro de 2011

 

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