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Quinta-Feira,�14 deNovembro,�2019

O murro no estômago

Fernando-Braga-de-Matos

Por Fernando Braga de Matos*

(Onde o autor alinha no coro verdiano contra a "Moody "s", seus lacaios e quem a apoiar, exibindo a perplexidade que outros quase tão sábios ostentam, desde o Presidente da República até ao da União Europeia, faz uma chamada às armas à nação valente, propondo um desembarque em Nova Iorque, mas sugere também uma explicação para a ignara nota com que fomos brindados).

Este corte da notação do risco da dívida nacional, em quatro níveis, para Ba2, não é brincadeira nenhuma e estou a usar esta linguagem matizada para não romper aos soluços. Nem é bem a quantidade de degraus que é chocante, mas a de entrar no nível de "lixo", isto é, aquele em que os investidores são advertidos que comprar dívida portuguesa já não é um investimento mas uma mera especulação, e aceitá-la como garantia de qualquer empréstimo revela idêntica imprudência. O financiamento da economia torna-se ainda mais problemático e caro e a riqueza dos portugueses diminui fortemente, pois tudo no país é aferido em função da valia financeira do Estado. A queda das bolsas surge imediatamente, mas é o valor de toda a propriedade, mobiliária ou imobiliária, que sai corroída. A hierarquia da dívida portuguesa tem vindo a cair nos últimos tempos de maneira retumbante, mas, fora os estertores de quem dizia e pensava que não tínhamos uma crise interna, recusando a imputação como os condenados nas prisões que se dizem sempre inocentes, a verdade é que as análises eram obviamente correctas, mais coisa menos coisa, e a atitude avisada era obviamente mudar de vida e não entrar no protesto militante a que ninguém no mundo liga pevide. Mas agora, mesmo aceitando os pontos de análise mais desfavorável, fica por explicar a amplitude e oportunidade para este diagnóstico da "Moody's".

As agências de notação nunca mais vão largar o labéu de andar a classificar com AAA entidades realmente falidas, durante a crise de 2008, mas, curiosamente, esse povo apenas vivia no engano ledo e cego em que toda a gente, principalmente os peritos, andavam mergulhados, não percebendo nada dos produtos altamente alavancados em que o risco parecia desaparecer com engenharia financeira desenhada por génios da matemática e da física. Sabia o leitor que o investidor individual que mais perdeu com a falência do Lehman's foi o próprio CEO do banco, que afinal estava tão a leste de tudo como o Secretário do Tesouro dos EU? Pensar que a gente do "rating" ia mais além na amplitude da sabedoria era completamente despropositado e nem seria necessário estar lá o Constâncio. Dizia um jornalista do "Wall Street Journal" que não resulta por gente que ganha salários de 5 algarismos a avaliar gente que ganha 7 algarismos.

O certo é que as agências não foram esquecidas mas ficaram quase perdoadas porque a tarefa que realizam é completamente imprescindível na vida financeira e nem é a dos tubarões da especulação mas de todos, desde os Estados às donas de casa japonesas e aos fundos de pensões que gerem as reformas dos trabalhadores. O que se percebe mal é como se mantém tudo em oligopólio quando o mercado é tão vasto e retributivo. Este funcionamento deficiente provoca inevitavelmente distorções quando existe tal distanciamento para o que é um mercado perfeito, mas é assim que estamos e nem é por isso que o infeliz Ba2 nos é tão prejudicial.

Basta pensar como certas avaliações de acções por casas de investimento influenciam as cotações das ditas e aqui até se sabe por evidência empírica que o desacerto geral é a regra . A questão é ter ou não credibilidade e importância, e o que se vê é que, no meio dos erros, a "Moody's" não as perdeu, doutro modo o clamor europeu não era tão intenso, nem dava para o tempo. À parte as teorias da conspiração, as razões da "Moody'" estão todas lá e nem sequer se dá ênfase adequado ao facto de a despesa pública ter aumentado fenomenalmente ao ponto de o limite máximo fixado para o final do ano já ter sido ultrapassado . Realmente, a possibilidade de um 2º pacote é mais que sabida; a hipótese de perdas para os investidores, sendo estes constrangidos a participar na operação de salvamento como se desenhou para a Grécia, está contida na hipótese (1); a eventualidade de as metas do défice não serem atingidas permanece. Mas…"What' s new, pussycat"?

Depois ocorreu-me uma razão, ao lembrar-me de um título da Reuters de 15 de Março passado: "Moody's reduz o rating de Portugal, depois de Sócrates falar" (sic). Então se calhar é isso, os tipos pensam que o homem ainda é primeiro-ministro.




(1) A "solução" europeia para a dívida grega, presumindo-a aplicável a Portugal, com um "roll-over " imposto aos credores particulares (um "default" dissimulado), é, tanto quanto posso pensar, o grande motivo desta notação de aviso aos investidores.

 

 

* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar


Publicado no Jornal de Negócios dia 8 de Julho de 2011

 

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