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Quinta-Feira,�14 deNovembro,�2019

Secos e molhados

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Por Fernando Braga de Matos*

(Onde o autor faz as suas escolhas da semana, no meio do alarido que percorre um país de cabeça perdida e rumo por encontrar, com os funcionários do FMI a vasculharem as contas e a tentarem perceber o desvario do nobre povo, nação valente, e da gente que o desgoverna).

A semana para mim começa ao sábado porque me posso dar ao luxo de escolher e o "sabbath" parece-me um dia curioso. Pois então as coisas iniciaram-se com o estardalhaço do Congresso do PS, mesmo aqui ao lado, em Matosinhos, mas, pior de tudo, com as televisões em directos, indirectos, resumos e comentários, dando jus ao significado cabalístico do dia. Já se sabe como funcionam estas coisas de congressos, mas este parece que ultrapassou o tom de comício-festa, caminhando mais para a missa vudu. Em tempo de absoluta derrota pessoal do PM, que apostou a "cave" contra a entrada do FMI, não se percebe tanta celebração, ainda mais assim apoteótica. Só faltou o "Healer" como música de fundo, cânticos de teor metafísico e até talvez umas galinhas de cabeça cortada. Eu dou de barato que aquela gente faz parte duma tribo como os outros que tal, mas aqui até parece que havia mescalina a correr, tal o excesso que chegou até às pessoas de qualidade habitualmente serenas. Então quando interveio António Vitorino, mesmo tendo em conta que liderava a lista de Sócrates para a Comissão Nacional, fiquei totalmente siderado. O discurso, recheado de emotivos "Zés" para a frente e "Zés" para trás, foi em tom de encantação eclesiástica, ao ponto de eu esperar que o dito Zé rompesse pelo púlpito fora, pusesse a mão na cabeça do orador e o fizesse crescer 10 cm, entre hossanas dos fiéis . É que Vitorino não é um badameco qualquer e o papel de histeria mal controlada a que se prestou até se tornou embaraçoso para qualquer português que, como eu, aprecia os seus concidadãos notáveis pelas boas razões. Claro que há outra hipótese para justificar a euforia descabelada, a mesma que explica os funerais em que há laudas hiperbólicas para o falecido, afinal assim tratado exactamente porque o é. Esta teoria pelo menos é racional.

O País, por sua vez, vive num estado de enervamento bem compreensível já que o futuro aparece retinto de cores escuras . Até penso que o pior de tudo advém da incerteza, pois as pessoas, conhecendo com segurança o mal concreto que eventualmente lhes apareça , aprontam-se para o que der e vier e tratam de reagir e seguir em frente, com a capacidade e coragem típicas dos seres humanos. Aqui não é possível. E como o seria quando o PM e a sua "clique" andam há anos a pintar a situação de rosa , com a realidade sempre a desmentir as fantasias? As pessoas não conseguem compreender o que se passa e, ainda menos, o que aí vem.

Entretanto, os portugueses, que manifestam permanentemente uma faceta pacífica e convivial , exibem também, por outro lado, uma manifesta incapacidade para o diálogo e o compromisso. É hoje em dia normal pessoalizar as discussões, reagir com acrimónia ao ponto de vista adverso, actuar com intolerância e agressividade militantes, desde a condução automóvel aos "fora" de opinião pública. E quando se chega ao futebol e à política partidária , parece que temos "cheyennes", de um lado, e "araphaos", de outro, em luta sem quartel. Mas, como com as tribos, o trilho da guerra são as chefias que o traçam e o ambiente hostil cria-se ou acumula-se com a permissão ou autoria das lideranças.

No futebol, é insuportável ver como o ambiente de atrito vai de escalada em escalada sem haver a menor intenção de por água na fervura. Os dirigentes, pelo seu próprio fanatismo ou para merecerem os gritos de triunfo e apoio incondicional dos adeptos, exibem permanentemente o machado de guerra, dos comunicados às entrevistas, indo até ao comentário televisivo estilo taliban. Não se vê fim à guerra, que, aliás, já não é somente de palavras. No campo político, então, do qual, infelizmente a nossa vida depende, com os cofres exauridos e o risco de falharmos pagamentos já em Junho, parece que sobra tempo e disposição para a pequena chicana e se foge à mais elementar obrigação de chegar a acordos necessários, ao menos tipo casamento "shotgun", à força, para a gente da União Europeia e do FMI que vão adiantar o óbulo.

Na Natureza, tudo tende para o equilíbrio, mas em Portugal, no estado em que está a Justiça, nem as leis da Natureza se aplicam.

 

* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar

Publicado no Jornal de Negócios dia 15 de Abril de 2011

 

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