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Quinta-Feira,�14 deNovembro,�2019

A economia é fixe

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por João César das Neves*

Na trovoada de desânimo que assola o País, depois de se lamentar a política, justiça e finanças, é costume dizer: "E o pior é a economia. A agricultura está de rastos, as pescas sumiram, a indústria acabou. O País não produz nem exporta. Só há centros comerciais." Esta conclusão é não só falsa, mas estúpida e perigosa.

Portugal tem problemas político-institucionais e grave situação financeira, com dívida crescente ao estrangeiro. Uma das poucas coisas que sustentam a situação é a economia, que está muito mais saudável do que se diz. Há velhas distorções e atrasos, mas elas não explicam o mal, porque já cá andavam quando a situação era boa. Vivemos uma recessão conjuntural e o desemprego disparou, como em qualquer economia saudável, mas apesar disso o aparelho produtivo vive um intenso desenvolvimento e reestruturação, que passa despercebido no meio da trovoada.

Aliás alguns dos sintomas que os críticos invocam são sinais da mesma evolução. A indústria têxtil tradicional, um dos nossos antigos cancros, morreu em 2005. Justamente criticada há décadas e mantida artificialmente por proteccionismo, foi finalmente devorada pela globalização, dando lugar a uma têxtil moderna e dinâmica. Claro que a mudança trouxe inevitável desemprego e depressão regional, que os críticos vêem como atraso na economia.

Basta consultar as estatísticas elementares para notar como a análise é falsa. Olhando por detrás da conjuntura para a essência estrutural, onde dizem estar o problema, esfumam-se os argumentos dos pessimistas. Portugal tem hoje um nível de vida (produto per capita) mais do dobro do de 1974. As nossas exportações, que em 1980 tinham subido até 25% do PIB, eram já 34% antes do soluço de 2009. O défice externo de mercadorias está estável há mais de 20 anos à volta de 10% do PIB. A produtividade média dos trabalhadores portugueses é baixa, mas cresceu até à crise (1996-2007) a 1,3% ao ano, o triplo da Espanha e próximo da Zona Euro.

Os números podiam continuar, mas todos mostram que, por baixo da crise, a estrutura é sólida, produtiva e exportadora. Podia ser melhor, mas não é má. O problema não está aí, mas no desperdício daquilo que produzimos. A economia é saudável, mas é sugada por uma camada de parasitas, que ganham sem razão. Através do Orçamento do Estado, que é já metade do produto, a riqueza é canalizada para usos ociosos, espúrios e até bloqueantes. Aí está o mal, não na produção. Isso traz-nos de novo aos problemas políticos, institucionais e financeiros.

Como podem os críticos, alguns eminentes, errar tanto o diagnóstico? A razão está na mudança da origem do valor. Grande parte dos factos que referem são reais, mas não significam o que dizem. Mostram apenas a terciarização da economia. Hoje os serviços constituem 75% do produto nacional e 60% do emprego. Há uns meros quinze anos eram 66% e 56% respectivamente. Esta é a fonte do lamento da morte de agricultura, indústria e pescas. Chama-se progresso.

Os nossos analistas não entendem que hoje produzir fisicamente não é onde se ganha dinheiro, mas nos serviços que se prestam. Não reparam que as empresas quase nos oferecem telemóveis, só para nos conseguirem prender ao seu tarifário. Manufacturar os bens é aquilo que os chineses fazem e vendem a desconto. Nós queremos qualidade, design, inovação, assistência técnica, manutenção, apoio ao cliente, informação, divertimento, arte, desporto, etc. É nisso que Portugal, como as economias ricas, se ocupa. Mas os comentadores não repararam.

O erro já é antigo. Quando no século XVIII surgiu a indústria uns intelectuais defenderam que só a agricultura é produtiva. De facto, a terra multiplica o que se semeia, enquanto as fábricas só transformam o que recebem. Os especialistas actuais regressam ao erro fisiocrata.

A tão criticada qualidade média dos nossos empresários e trabalhadores é excelente. O mal está na péssima qualidade dos nossos intelectuais que, não só criaram a crise político-institucional, mas fazem um diagnóstico errado da situação.

 


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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 1 de Março 2010

 

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