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Quinta-Feira,�14 deNovembro,�2019

A geração da crise

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por João César das Neves*

Pela primeira vez, há mais de 50 anos, Portugal terá uma geração a viver pior que a anterior." Esta é uma frase que, com algumas variantes, ouvimos frequentemente. Pode até ser o chavão da crise, que se assume como estrutural.

 

É bom notar que nos últimos 50 anos nunca se disse que as gerações viviam melhor que as anteriores. O que se ouvia eram queixas, lamentos, protestos. Agora, que supostamente se perdeu aquilo que é tão precioso, finalmente notamos a sua existência.

Mas como é que se sabe isto? Qual o fundamento para uma afirmação tão clara e dramática? Uma geração abarca muito tempo e, formulada assim, esta conclusão tem consequências vastas e abrangentes. Será mesmo verdade que o que sabemos nos permite conclusões sobre a dinâmica geracional?

De facto a frase não resiste a inspecção detalhada. Começa logo por se basear no conceito vago e indefinido de "geração". Depois nem sequer clarifica se a comparação é com a actual, a anterior ou a seguinte. De facto não pode ser uma constatação. Os insuspeitos dados europeus (séries AMECO, preços de 2000) dizem-nos que Portugal em 2010 produziu mais 6,7% que em 2000 e o rendimento nacional subiu 5%, estagnando em valores por pessoa. A actual geração não perdeu face à anterior.

Assim tem de ser uma previsão: vamos viver pior que antes. Isso, aliás, encaixa num outro oráculo hoje recorrente: "Esta crise vai demorar mais de dez anos a corrigir." Ainda uma previsão arbitrária, certamente inspirada pelo mesmo pessimismo endémico que nos impediu de reconhecer os ganhos dos últimos 50 anos. Determinar quando a crise estará resolvida é algo que ninguém hoje pode seriamente fazer. As rupturas de 1977 e 1983 foram solucionadas em dois ou três anos; mas as de 1560, 1605, 1837, 1847 e 1892 demoraram várias gerações. Esta deverá ficar no meio dessas.

O que tem mais graça em toda esta discussão é que aqueles que são tão rigorosos a afirmar uma data remota e contingente costumam ser incapazes de responder com clareza a duas questões muito mais simples e directas: quando começou esta crise? Quando começa a recuperação?

Uma crise nunca começa quando se sente, mas quando surge o desequilíbrio que a provoca. Como uma bebedeira, é na euforia da festa que nasce o problema. A questão central desta é a habitual: o endividamento externo. Estamos há muito a viver acima das nossas posses e os credores perderam a paciência. Ora isso começou numa data precisa: 1996. A balança externa (saldo corrente e de capital) andou praticamente equilibrada nos dez anos anteriores e então começou a derrapagem que ainda não está resolvida. A dívida externa, que era de 8% do PIB nessa data, anda hoje acima dos 110%. Foi nestes 15 anos que Portugal se transformou num país viciado em crédito externo. Quase uma geração.

O segundo momento decisivo é quando acaba a festa e começa a ressaca, surgindo os sacrifícios que curam o desequilíbrio. E esse instante tem também uma resposta evidente: ainda não começou. O défice externo continua igual e a dívida continua a subir. O que o Governo celebrou na semana passada foi o sucesso de um leilão de mais dívida.

O que temos são promessas de austeridade e luta de interesses para evitar a dureza. Quando saírem os dados fiáveis deste últimos meses, o mais provável é que mostrem mais despesa, com a corrida a aumentos, promoções e outros expedientes. A única coisa que este ano já trouxe foi subida de impostos, que tivemos repetidamente nestes 15 anos, sem que isso significasse qualquer correcção real.

A origem da crise é patente: largas franjas da sociedade portuguesa retiram dela muito mais do que contribuem. Não quer dizer que produzam pouco, mas que ganham mais que isso. Muitos só atrapalham e desperdiçam. O mecanismo central desse processo é indiscutivelmente o Orçamento do Estado, que inchou até metade do PIB.

A crise fica resolvida em meses ou sacrifica várias gerações. A resposta depende da data em que esta geração abandonar a pantomima dos últimos anos que, finalmente, já não convence ninguém.


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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 17 de Janeiro 2011

 

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