Liberty Silver - Moedas de Prata sem IVA

Liberty_Silver_PT

Facebook BI

Domingo,�31 deMaio,�2020

A regra do palpite

joao_Cesar_das_neves

por João César das Neves*

Esta crise dura dez anos", "Portugal sairá do euro", "este ano o desemprego chega aos 16%". Os nossos jornais estão cheios de previsões destas, todas certas e seguras. Todas levantam a mesma questão: como é que sabem?

Quando especialistas e organizações respeitadas têm dúvidas e repetem que a situação é nebulosa, quando os seus números indicativos são ultrapassados pela realidade, o que dá aos amadores tanta convicção? E porque razão insistem os jornais na recolha de palpites destes, de origens mais variadas, como se fosse um contributo válido?

A previsão económica é uma tarefa muito difícil e complexa, mas segue alguns princípios simples, infelizmente descurados. O primeiro é que a vida das empresas e dos negócios individuais é muito incerta. A única garantia económica é a falta dela. O segundo é que, apesar disso, as séries agregadas mostram forte persistência.

Esta aparente contradição é paralela à vida natural. No campo os animais e plantas, como os projectos no mercado, suportam existências atribuladas, imprevisíveis, muitas vezes efémeras. Mas isso não impede a paisagem selvagem de permanecer semelhante a si mesma ao longo dos anos. Uma falência é tão traumática como a queda de uma árvore e uma crise tão devastadora como um fogo florestal. Mas economia e natureza sempre renascem.

É nessa persistência natural das séries agregadas que se baseiam todos os modelos científicos de previsão económica. A estatística só capta o previsível mas felizmente, ao ritmo trimestral e anual, as variáveis económicas revelam elevada inércia. Além disso há choques sucessivos e continua a ser impossível antecipar com certeza fogos, secas e cheias. Assim as estimativas de especialistas, captando só a inércia latente, nunca acertam, mas raramente falham muito.

Esta incapacidade preditiva cria muita troça entre os leigos, que a tomam como fraqueza científica. Ciência séria é a Física, pois se sabe com mais rigor os efeitos da queda de um tijolo que a da bolsa, se compreende melhor rotação de planetas que flutuações de preços. Mas não será normal que em assuntos simples, como tijolos ou planetas, haja respostas rigorosas? É nas coisas difíceis que surge a incerteza. O médico também classifica a doença sem antecipar súbitos agravamentos ou melhorias.

Embora no complexo mundo económico as certezas sejam poucas, é fácil ver como são tolos muitos dos palpites mediáticos. O quadro económico de um país não é antecipável a cinco anos, quanto mais a dez. A permanência no euro depende menos da situação económica que da vontade política, onde não há inércia que nos valha. Dado que o desemprego disparou nos últimos meses, é mais provável que pare ou desça do que continue.

Para compreender este último ponto é preciso dividir as variáveis económicas em dois grupos. Algumas, como desemprego e inflação, flutuam com o ciclo, enquanto outras, como salários ou produto, crescem com a tendência. Nas variáveis cíclicas há, não trajecto persistente, mas retorno à média, que só choques muito fortes alteram.

A previsão económica é tarefa difícil. Por isso muitos preferem o palpite. Quanto a estes, o melhor seria evitá-los. Mas a haver, também existe uma regra simples: dizer sempre que vai correr mal. Isso não falha, primeiro porque as pessoas acreditam, e depois porque, se errar, já ninguém se lembra. Pelo contrário, quem faz antevisão optimista não só não é credível, mas todos vão censurar impiedosamente ao falhar.

Vê-se bem que os nossos comentadores seguem religiosamente esta regra, na imprensa como nas conversas de café. Em qualquer situação, dominam os cenários negros. Quando as coisas correm bem, diz-se ser sol de pouca dura. Quando há crise, isso não só era inevitável, mas acabará pior do que se julga.

O que surpreende aqui é que, depois de decretarem as piores catástrofes, os analistas dêem uma garfada, desliguem a televisão ou vão para a cama, como se afinal o tal horror não viesse e tudo fosse regressar ao normal. E na economia, como na floresta, em geral regressa.





Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar

*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no Diário de Notícias dia 12 de Março 2012

 

Comentários (0)

Subscrever RSS deste comentário.

Exibir/Ocultar comentários.

Escreva um comentário.


busy

AVISO: A informação contida neste website foi obtida de fontes consideradas credíveis, contudo não há garantia da sua exactidão. As opiniões aqui expressas são-no a titulo exclusivamente pessoal. Devido à variação dos objectivos de investimento individuais, este conteúdo não deve ser interpretado como conselhos para as necessidades particulares do leitor. As opinões expressas aqui são parte da nossa opinião nesta data e são sujeitas a alteração sem aviso. Qualquer acção resultante da utilização da leitura deste comentário independente do mercado, é da exclusiva responsabilidade do leitor.