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A síndrome do dentista

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por João César das Neves*

O enredo dos últimos anos é que agentes financeiros tolos, com análises incompreensíveis e operações mirabolantes, criaram a brutal crise mundial. Será verdade? Três histórias apontam a resposta.

O grande químico sueco Alfred Nobel (1833-1896) dominou a instável nitroglicerina inventando a dinamite em 1867. Isso fê-lo milionário e criador dos Prémios Nobel. Mas a 3 de Setembro de 1864 as suas experiências rebentaram a fábrica, matando o irmão mais novo, Emil (1843-1864), e mais quatro pessoas. Não admira: era nitroglicerina!

Orville (1871-1948) e Wilbur Wright (1867-1912), pioneiros da aviação, também perderam muitos colaboradores. Orville quase morreu a 14 de Julho de 1905 num desastre do Flyer III e a 17 de Setembro de 1908, além dos seus graves ferimentos, a queda matou o passageiro, o tenente Thomas Selfridge (1882-1908), primeira vítima fatal da aviação. Não fomos mesmo feitos para voar!

Em 1973, Fischer Black (1938- -1995) e Myron Scholes (1941-) publicaram a fórmula de cálculo do preço das opções financeiras. Em 1997, após a morte de Black, a descoberta valeu a Scholes, e outro exponente das finanças Robert Merton (1944-), o Prémio Nobel da Economia, galardão do inventor da dinamite. Logo no ano seguinte, as crises do Extremo Oriente e da Rússia rebentaram o Long- -Term Capital Management (LTCM), um hedge fund criado em 1994 por Scholes e Merton. O colapso exigiu a injecção de 3,6 mil milhões de dólares de um consórcio dos 14 maiores bancos de Wall Street a 23 de Setembro de 1998.

Que semelhanças há nestas histórias? Nos três casos, progressos decisivos foram obtidos com produtos perigosos que criaram desgraças. Apesar disso, Nobel e os irmãos Wright são admirados e os seus acidentes considerados custos inevitáveis dos benefícios, gerando mártires da técnica. Mas ainda hoje Scholes e Merton são ridicularizados, até por colegas.

Porquê a diferença de tratamento? Há séculos sabemos que as finanças são explosivas, como a nitroglicerina, sujeitas a quedas súbitas, como os aviões. Na química, aeronáutica e bolsas os avanços só são possíveis à custa de muitos riscos, vários desastres e fatalidades. Se existe diferença nos três casos é que nos dois primeiros as vítimas perderam a vida, enquanto na terceira foi só dinheiro. Aliás, os últimos investidores do LTCM até recuperaram com ganho a ajuda que deram.

Este episódio ficou na história por envolver autores galardoados, mas a actual crise viu renascer o mesmo argumento. A todo o momento comentadores repetem o cânone da acusação: as falências provam a estupidez dos modelos teóricos. O público, que confessa não entender as fórmulas matemáticas, sente-se justificado em desprezá-las. Mas também não percebe nada da química da dinamite e da aerodinâmica das aeronaves e, apesar das fatalidades, é por isso mesmo que as respeita.

É insólito que, enquanto os explosivos criam montanhas de escombros e os aviões fizeram 1115 mortes só em 2010, sejam as finanças que as pessoas censuram. Ninguém critica um perito em demolições ou um piloto aéreo, mas é normal desprezar banqueiros e financeiros pela sua actividade, mesmo com sucesso. Até este artigo em defesa do sector parece mal.

A razão da diferença não tem que ver com fraudes. As finanças podem ser usadas em crimes, como a dinamite ou os aviões. Nem pode vir da maior utilidade dos dois primeiros casos, porque as construtoras que usam explosivos, as companhias de aviação e até os Prémios Nobel não funcionariam sem o sistema financeiro que Black, Scholes e Merton tanto melhoraram. Toda a gente acusa banqueiros e investidores de brincarem com as nossas poupanças e encherem os bolsos à custa de trabalhadores pobres, mas sem a globalização financeira os trabalhadores de todo o mundo seriam muito mais pobres, mesmo descontada a crise. Nem conseguimos imaginar economia desenvolvida sem bancos ou bolsas.

A verdadeira razão da diferença é outra. As finanças são como os dentistas: todos precisamos delas, por vezes desesperadamente, mas não conseguimos deixar de as detestar.

 

 

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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 7 de Março 2011

 

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