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Quinta-Feira,�14 deNovembro,�2019

Construção de um monstro

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por João César das Neves*

As coisas à distância surgem alteradas. Por isso os heróis e vilões da história pareceram em geral muito diferentes dos contemporâneos. As duas visões são válidas, aspectos distintos de personalidades e épocas complexas. Isso vê-se bem tentando adivinhar como a nossa realidade será descrita daqui a séculos.

O tempo realiza dois fenómenos sobre o panorama de uma era. Primeiro esquece pormenores e reduz o relato aos traços estruturais. Depois concentra os actos e ideias de multidões no líder do momento. Por isso, por muito que surpreenda, é provável que José Sócrates fique na história de forma distinta daquela como o vemos, como o monstro que vandalizou a família e a cultura portuguesas.

Em breve desaparecerão as questões que hoje dominam a política nacional. Défices, escândalos, obras, reformas parecerão detalhes ínfimos aos nossos descendentes. Aquilo que chocará o futuro são sem dúvida as tentativas radicais e atabalhoadas na legislação da família.

Se virmos com atenção, é impressionante o número e alcance das medidas de alguns meses. Em lugar destacado está a lei do aborto de 2007, responsável pelo morticínio de milhares. Às próximas gerações não passará despercebida a enorme fraude política de usar um referendo não vinculativo sobre a despenalização para impor não só legalização mas fomento com dinheiro de impostos. Deste modo, uma simples decisão inverteu totalmente a atitude legal face à prática, da proibição à promoção descarada.

O aborto é apenas um aspecto, de longe o mais sangrento, da vasta investida recente contra a vida. A "lei da procriação medicamente assistida" de 2006 assumiu um regime laxista e irresponsável na protecção ao embrião humano, ultrapassando o pior do mundo. As leis do divórcio de 2008 e uniões de facto de 2009 constituem enormes atentados à instituição familiar, só comparáveis à campanha de 2010 pelo casamento do mesmo sexo. Mais influente, o Estado sob a capa de educação sexual impõe às crianças e jovens a sua ideologia frouxa e lasciva. A tolice atinge o paroxismo em detalhes ridículos, como as praias de nudistas onde se anuncia regulamentação. Em todos os casos fez--se a coisa de forma apressada, ligeira e arrogante, à maneira dos tiranos de antigamente, sem respeito por instituições e articulados seculares.

Tudo isto são só papéis, que se mudam facilmente. Mas, mesmo que mudem, à distância tudo parecerá resultado de obsessão maníaca. Até porque os efeitos nefastos são bem visíveis. Desde 2007, a mortalidade ultrapassou a natalidade. Portugal é o país com menor fertilidade na Europa ocidental, das mais baixas do mundo. Esta catástrofe demográfica faz de nós um povo em vias de extinção e ameaça a nossa herança e cultura. O número de divórcios é mais de metade dos casamentos, enquanto a coabitação precária e os filhos fora do casamento explodem, gerando lares esfarrapados, insucesso escolar, de- pressões, miséria, crime.

O futuro não compreenderá que o Governo não só não o note mas se encarnice em agravá-lo. As gerações vindouras só o entenderão atribuindo-o a um magno plano malévolo, como fazemos a Nero, Napoleão ou Hitler. A teoria vácua da "modernidade" invocada em discursos, será vista como capa para propósitos sinistros, cultos sexuais, taras pessoais, desequilíbrios doentios.

Sobretudo será impossível convencer os longínquos do que para nós é evidente. Todas estas medidas de profundo alcance foram tomadas mais por descuido que desígnio, na distracção da conjuntura. Para quem apenas pensa politicamente nos títulos do fim- -de-semana, as mudanças radicais na mais estrutural legislação são detalhes retóricos, meras formas de polir os emblemas de esquerda embaciados pela política económica. Por exemplo, nem sabem o que fazer do colapso demográfico. Nestes ataques à vida e família, vê-se mais inconsciência que maldade, irresponsabilidade que propósito, desdém que planeamento.

Mas, tudo considerado, os nossos netos são capazes de ter alguma razão. Afinal, à distância vê-se o que a confusão do momento esconde.


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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 26 de Abril 2010

 

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