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Milagre ou pesadelo?

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por João César das Neves*

No próximo sábado atinge 30 anos o mais vasto e longo genocídio da história. A "carta aberta" do comité central do Partido Comunista Chinês publicada a 25 de Setembro de 1980 é considerada o lançamento oficial da "política do filho único", em preparação desde 1978, e que ainda vigora.

A orientação é anterior e segue a linha de toda a revolução chinesa, pois foi antes de 1980 que se deu a dramática queda da fertilidade. Depois da catástrofe do "grande salto em frente", programa económico de 1958 a 1961, que gerou a maior fome artificial da história e reduziu a taxa de fertilidade para 3,4 filhos por mulher, os valores recuperaram e em 1962 estavam em 7,6. Mas a política maoista era implacável. No início da "revolução cultural", em 1966, o valor já descera para 5,5 e quando Mao morreu, em 1976, chegara aos 3 filhos por mulher, sendo de 2,5 em 1980, início da política. Assim, a nova medida apenas pretendia consolidar os "ganhos" obtidos. E conseguiu-o. Os números mais recentes, 1,7 filhos por mulher, são dos menores do mundo (Portugal é dos poucos abaixo).

O que toda esta política, desde a revolução, significou em sofrimento, destruição familiar, aborto e infanticídio forçados, sobretudo de meninas, é impossível estimar, mas aterrador até nos cálculos inferiores. Só pode ser qualificado como uma das maiores e mais longas chacinas de todos os tempos.

Mas a violência contra a China não se ficou por aí. Se juntarmos as experiências económicas, sociais e culturais do maoismo, temos de dizer que nos últimos 60 anos a civilização mais antiga e rica da humanidade sofreu o ataque mais vasto e profundo que a história regista contra uma cultura.

O aspecto mais patético é que o mundo anda maravilhado com o despertar económico da China, que coincide com estes 30 anos. Vendo de longe e sem compreender a realidade, o Ocidente interpreta como sucesso e até ameaça a situação de uma China espancada, brutalizada, destruída, quase moribunda. E, temos de o dizer, o crescimento económico do país, também ele único na história do planeta, faz parte dessa monumental agressão que só o povo chinês, sujeito da cultura mais antiga e rica, poderia suportar e sobreviver.

A China sempre fascinou o Ocidente. Mas se eliminarmos o romantismo mítico e olharmos para a crueza da situação, vemos que o suposto milagre chinês é miséria e desgraça. É verdade que as décadas de crescimento incomparável reduziram imenso a pobreza e melhoraram o bem-estar das populações. Mas, em qualquer área que se considere, os problemas chineses parecem tão gigantescos quanto o seu progresso.

O sistema económico conseguiu juntar os pior de todos os outros. Não só se vive nas suas empresas a mais bárbara exploração capitalista, muito maior que a que Marx denunciou, mas orgulhando-se de ser um regime marxista, suportam-se ainda todos os abusos soviéticos de expropriações e arbitrariedades de burocratas e comissários do povo. No campo ambiental, a poluição, desertificação e envenenamento atingem proporções épicas. Financeiramente os bancos nacionalizados e as grandes empresas públicas têm enormes desequilíbrios escondidos. O desajustamento de gerações, criado pela política do filho único, faz a crise da segurança social ocidental parecer brincadeira. Os estrangulamentos de infra- -estruturas, falhas na educação, saúde, justiça, e outros serviços só não explodem por apatia dos utentes. Para não falar nas disparidades regionais, conflitos étnicos, corrupção, etc. Sobretudo, as sistemáticas e gravíssimas violações de direitos humanos.

Olhando com atenção, vislumbramos os escombros da tradição chinesa, os cadáveres dos valores confucionistas, taoistas e budistas, após 60 anos de brutal agressão maoista. Perante este panorama desolador, de uma cultura riquíssima reduzida a ruínas fumegantes, aquilo que o Ocidente tem a dizer é temer a concorrência industrial e o impacto nos preços de matérias--primas. Esta reacção mesquinha é sinal evidente da miséria a que também está reduzida a cultura europeia.

 

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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 20 de Setembro 2010

 

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