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Quinta-Feira,�14 deNovembro,�2019

O ano de todos os perigos

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por João César das Neves*

O mundo vive um período perigoso. A actual conjuntura parece assombrada simultaneamente pelos piores fantasmas dos últimos séculos.

O primeiro e mais evidente é a turbulência financeira. Desde 2008 que se fala do crash bolsista de 1929 e se anuncia outra grande depressão. Esta é a pior das ameaças económicas, cuja miséria e desespero motivaram então a pior guerra de sempre. Felizmente a lição foi-nos decisiva para travar a derrocada. As autoridades monetárias e orçamentais fizeram agora precisamente o que faltou há 80 anos. O colapso foi debelado, mas permanece uma fragilidade que permite uma recaída e amplia outros choques. E esses não faltam.

Os choques do petróleo e alimentar, fantasmas dos anos 70 e 80, também insistem em ressurgir. Isto parece impossível, porque uma depressão deflacionista é incompatível com encarecimento de matérias-primas. De facto, eles não aparecem simultaneamente, pois a carestia em meados de 2008 foi interrompida pela perturbação bancária, para só agora recomeçar. Desta forma paradoxal é possível hoje a coexistência dos dois monstros opostos de 1929-33 e de 1973-79.

O pior fantasma é, também, o menos referido: estão a regressar os sofrimentos da Revolução Industrial. Há 20 anos que multidões de novos proletários entram no mercado internacional através da globalização. Sobretudo na China e na Índia, mas também no resto da Ásia e da América Latina, dezenas de milhões de pessoas estão a ser arrancadas anualmente à miséria da subsistência rural e colocadas em fábricas, produzindo para o mundo. Isto cria pressões que a humanidade julgava esquecidas há muito, gerando efeitos em ambos os extremos do espectro global.

Nas economias emergentes renascem os terríveis dramas industriais da Europa de Oitocentos. Nas sweat-shops chinesas, mas também indianas, indonésias, brasileiras e afins, é com o sangue e as lágrimas desta geração que se forja a futura prosperidade dos actuais países pobres. É especialmente desconcertante que seja numa sociedade que se considera marxista que surjam as situações mais parecidas com as que Karl Marx denunciou. A China contemporânea combina o pior do capitalismo e estalinismo.

Mas os países ricos também sentem este terceiro fantasma. Na Europa e na América do Norte, a concorrência das novas economias industrializadas, se melhora o bem-estar e alivia a inflação, cria uma pressão negativa sobre os salários não especializados. Isso agrava a disparidade de rendimentos, gera graves tensões sociais e oprime o Estado-Providência, fazendo ressurgir extremismos políticos.

Agora, além dos três horrores de Keynes, OPEP e Marx, a conjuntura enfrenta também o espectro de 1848, o ano das revoluções. Os tumultos na Tunísia e no Egipto, na Jordânia, no Iémen e no Sudão parecem motivar um efeito em cadeia que lembra as perturbações contagiosas na Europa de há 163 anos. Dada a coincidência da anemia financeira, carestia de mercadorias e expansão do proletariado, esta instabilidade política, para mais em países próximos do petróleo, arrisca-se a incendiar o mundo.

A isto juntam-se outros fantasmas clássicos, conflitos religiosos (fundamentalismo islâmico, extremismo hindu, perseguição maçónica), imperialismo colonial (EUA no Iraque e no Afeganistão), tiranos loucos (Chavez, Ahmadinejad), desastres ambientais (aquecimento global, BP no Golfo do México), etc.. O mundo está perigoso.

Temos diante de nós problemas próximos dos piores dos últimos 200 anos. Mas mil ameaças não impõem um desastre. Tudo depende de uma questão decisiva: será que a humanidade aprende com os seus erros?

A história das últimas décadas sugere uma resposta afirmativa, pelo menos quando a lição é dura. As gerações traumatizadas pelos horrores do século xx evitaram os erros dos antecessores e criaram uma sociedade democrática, equilibrada, aberta e respeitadora das diferenças. Ela pode ultrapassar velhos riscos, injustiças, zangas e conflitos, no caminho para um mundo mais próspero, justo e sólido. Hoje, mais que nunca, precisamos dessa sensatez e moderação.


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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 14 de Fevereiro 2011

 

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