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O custo da facilidade

joao_Cesar_das_neves

por João César das Neves*

Um dos problemas mais interessantes e influentes do nosso tempo é saber se a redução do custo degrada o valor. Graças à tecnologia cada vez temos mais coisas e mais baratas, mas isso não significa que vivamos melhor.

Pode ser que, aumentando as disponibilidades, desça a satisfação. Esta é a questão mais decisiva do progresso: será que avanço significa melhoria?

A primeira coisa a reduzir o custo, logo nos inícios da industrialização, foi naturalmente a mais indispensável: a alimentação. Graças a isso foi praticamente eliminado o drama da fome endémica nas sociedades desenvolvidas. Mas não se pode dizer que comamos hoje melhor que antes, multiplicando-se problemas como obesidade, colesterol, bulimia e anorexia. Vestuário e habitação, igualmente básicos, vieram a seguir, mas basta ver a indumentária de um jovem actual ou visitar o seu quarto para perguntar se a abundância significou qualidade.

Outro campo com ganhos notáveis é a arte. Em todos os modos de expressão, da música à literatura e artes plásticas, qualquer um pode hoje facilmente dar largas à sua manifestação estética de forma impensável há poucas décadas. A técnica até gerou novas formas de criação, da fotografia ao cinema, até às curtíssimas dos tele- móveis. A dúvida é saber se este tempo deixará obras de qualidade comparáveis aos anteriores, ou se a descida de custos fez brotar o grotesco, boçal, mesquinho. Onde estão os novos Mozart, Rembrant ou Dante? Muitos diziam que a antiga sociedade elitista e limitada afogava a expressividade de múltiplos génios em potência. As últimas décadas dificilmente provam a tese de que o aumento da acessibilidade melhora o talento. O menor custo gerou pouca excelência.

Este fenómeno tem dimensões compreensíveis e naturais devido a uma característica humana básica. As pessoas tendem a desprezar aquilo que abunda, mesmo óptimo, enquanto admiram a raridade, até detestável. A água indispensável é mais barata que o ácido sulfúrico tóxico e há mais gente a contemplar a telenovela que o pôr-do-sol. Mas existe outra dimensão: o alargamento do leque de escolhas leva as pessoas frequentemente a optarem pelo mal. Errar é, não só humano, mas necessidade básica.

Talvez o aspecto onde este elemento é mais visível seja aquele onde a redução de custos tem sido maior: a comunicação. Internet, telemóveis e afins ampliaram espantosamente o grau de conectividade dos seres humanos. Mas terá aumentado a proximidade, solidariedade e elevação das conversas? Será o Facebook mesmo uma rede social, ou antes uma promoção de vacuidade, ilusão, embuste e solidão?

Durante milénios a forma de contacto à distância era a carta, em tempos onde papiro e pergaminho eram caríssimos. Por isso cada um pensava muito bem naquilo que ia escrever. O resultado é que ainda hoje guardamos colectâneas de epístolas de figuras marcantes como tesouros do pensamento. Seria natural e saudável que a abissal descida no custo da comunicação multiplicasse as mensagens inúteis e banais, como os que usam chamadas grátis para dizer "estou a chegar". O verdadeiro problema, porém, é se esta enorme explosão de ligações não eliminou as tais mensagens profundas, ponderadas e elaboradas, aquelas que valeria a pena guardar em colectâneas de correspondência. O mal seria se a redução de custo do contacto tivesse degradado o valor das mensagens. Não apenas da mensagem marginal, que é compreensível, mas de todas.

O progresso sempre assustou. Malthus previu fome e miséria, Marx anunciou exploração e conflitos, os ecologistas prometem catástrofes planetárias. Na verdade a enorme descida de custos no acesso aos bens, em todos os campos, tem criado ganhos espantosos, que nem sempre sabemos apreciar. Apesar de tudo, a maravilhosa comunicação na Internet é inestimável. No entanto, temos de dizer também que o esforço, sofrimento e sacrifício são condições necessárias da qualidade. A facilidade do progresso gera banalização e mata a excelência.

Por isso, talvez as crises sejam indispensáveis para nos sentirmos humanos.

 

 

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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 10 de Outubro 2011

 

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Pesquisa sobre tomada de decisão
Gostaria que verificasse a possibilidade de publicar sobre minha dissertação de mestrado.

Os profissionais de finanças sofrem o efeito subliminar nas decisões de compra de ações?

Está pergunta foi objeto de estudo da dissertação de mestrado da aluna Jandira Sandra Ferreira no mestrado profissional em controladoria da Universidade Mackenzie orientada pelo Prof. Dr. Ricardo Lopes Cardoso onde pode-se concluir que sim! O estímulo subliminar é arquivado no subconsciente e vem à toma sem que o indivíduo perceba sua origem. O estudo do pessoal do Mackenzie foi inspirado pela experiência clássica realizada em 1959, quando da exibição do filme Pic-Nic, nos EUA, imagens sobrepostas à tela do cinema projetavam a frase “drink coke” (beba coca) por inúmeras vezes e em frações de segundos (3 ms), o que é imperceptível à visão humana. Resultando no aumento das vendas do produto em 50% durante o intervalo. Os executivos financeiros quando submetidos a decisões de compra de ações o que pode parecer algo extremamente racional sofrem o efeito de uma apresentação oculta de estímulos e palavras positivas ou negativas no momento da compra de ações de empresas listadas na BOVESPA – Bolsa de Valores de São Paulo. Este efeito ocorreu de forma mais acentuada quando os analistas são submetidos a decisões de compra em empresas menos conhecidas ou com baixo nível de liquidez no mercado. Desta forma, pode-se dizer que o subconsciente dos participantes influencia a decisão dos mesmos. Pode-se dizer olhando os resultados que no caso de notícias ruins em companhias pouco conhecidas ou pouco acompanhadas pelos analistas o efeito sobre a decisão de venda ou compra do ativo é ainda mais efetiva podendo mudar a decisão do analista. Já no caso de notícias positivas o efeito é bem menor nas decisões de compra e venda dos analistas em empresas não conhecidas. Estes resultados podem levar confirmar questões “ocultas” que as companhias abertas usam de um modo geral como: road shows caros, materiais de divulgação altamente sofisticados e caros, entre outros elementos que não parecem afetar a racionalidade do analista, mas no final das contas influenciam sim a sua decisão.

Autores: Jandira Sandra Ferreira, mestre em controladoria pela Universidade Mackenzie e professora da mesma universidade atualmente. Ricardo Lopes Cardoso, Doutor em contabilidade e controladoria pela USP e professor da Universidade Mackenzie.

Link ao trabalho completo para maiores informações:
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none , 24 de Outubro, 2011

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