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Domingo,�31 deMaio,�2020

O erro de Kant

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por João César das Neves*


"Isto está tudo errado. É preciso deitar fora e começar de novo." Desde a escola primária, todos conhecemos esta situação drástica e terrível. Mas o que é habitual nos desenhos e nos trabalhos de casa surge também aplicado a questões económico-sociais. Não faltam os que, desesperados com problemas agudos, propõem mudanças radicais no País, classe dirigente ou sistema internacional. É preciso repensar tudo.

Quem o diz com seriedade tem em geral objectivos generosos e voluntaristas, mas não se dá conta da arrogância subtil de que é vítima. O mundo é como é, e se por acaso a existência não lhe agrada, ninguém lhe dará outra. Nem a natureza nem a humanidade lhe têm de prestar contas. Ninguém o nomeou sequer juiz, quanto mais proprietário da realidade. Tudo o que temos é dom, pois nascemos nus das nossas mães. Isso significa que uma gratidão fundamental é condição prévia para abrir os olhos todas as manhãs. Uma vontade empenhada de melhorar o que há, por louvável que seja, pode fazer-nos esquecer esta verdade. Os únicos revolucionários bem-sucedidos foram pessoas humildes e gratas.

O erro de desprezar radicalmente a realidade, arrogando-se o direito de a melhorar, é uma atitude eminentemente moderna. Pode corporizar-se num dos textos constitutivos da cultura contemporânea, o ensaio "O que é o iluminismo?" (Was ist Aufklärung?), publicado no número de Dezembro de 1784 do Berlinische Monatsschrift pelo grande filósofo Immanuel Kant. A primeira frase do texto, que inclui a desejada definição, diz tudo: "Iluminismo é a emergência do homem da sua auto-imposta imaturidade."

O grande movimento histórico que esta frase lançou, e que ainda permanece, merece três comentários. O primeiro é que se baseia numa das atitudes mais grandiosas, inspiradoras e empolgantes que a humanidade alguma vez sentiu. Confiantes na liberdade, na ciência e na técnica, os iluministas e seus sucessores entregam-se para construir uma sociedade perfeita ou, pelo menos, mais justa, nobre e feliz. O segundo ponto é que graças a ele tivemos e continuamos a ter benefícios espantosos. A referida "emergência do homem" traduz-se em inúmeras vantagens, da medicina à democracia, das comunicações à arte, do conforto à criatividade. Vivemos há 250 anos em progresso intenso, pelo que temos dificuldade em imaginar a vida quotidiana do século XVIII ou prever a que nos espera dentro de décadas.

O terceiro aspecto é que, sem esquecer estes elementos maravilhosos, a atitude sobranceira do Iluminismo deixou muito estrago. A vontade de fazer de novo, rejeitando o que havia, demoliu inúmeras coisas boas, dos guilhotinados da Revolução Francesa ao aquecimento global. No limite, holocausto nazi e gulag soviético foram as manifestações supremas da ingenuidade iluminista.

Quando alguém tem a petulância de menosprezar como "auto-imposta imaturidade" tudo que o antecedeu e rodeia, desdenha coisas magníficas que não entende. Se o ser humano sobe para o montículo que construiu e se proclama senhor da natureza e da história, todo o universo desata a rir. Quando uma criatura se assume dona da sua consciência e do seu corpo, das suas relações e posses materiais, fará muita asneira. Por muito culto e inteligente que seja - e muitos, como Kant, eram -, por muitos avanços técnicos e científicos que consiga - e muitos conseguiram -, elabora a partir de uma mentira radical: o mundo e a sociedade não nos pertencem. Nem sequer eu me pertenço a mim.

Podemos situar aqui quase todos os terríveis dramas que nos afligem. Da poluição à crise financeira, da corrupção às guerras e revoluções, do aborto e do divórcio à droga e ao terrorismo, nestes e tantos outros temas, há sempre alguém que se sente capaz de comandar a si e ao universo.

Assim, o erro de Kant, corolário do erro racionalista de Descartes, está na origem desta sociedade rica e próspera, mas injusta, desorientada, deprimida. Os últimos dois séculos foram espantosos, mas, como o filho pródigo da parábola, o Ocidente esbanjou a vasta herança que exigiu e vê-se a guardar porcos.

 

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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.


 

Publicado no Diário de Notícias dia 30 de Setembro 2013

 

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