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Quinta-Feira,�14 deNovembro,�2019

O fim do euro?

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por João César das Neves*

O euro viveu os primeiros momentos de real perigo nos seus onze anos de vida. Aquilo que foi a crise grega descambou num risco geral, com o ataque dos mercados a revelar rachas insuspeitas no edifício monetário europeu. Será o princípio do fim?

A crise internacional começou por ser, pelo contrário, uma excelente confirmação do projecto de integração. Num pânico generalizado, o lastro monetário conta muito. A dimensão do euro, como do dólar, absorveu os choques e protegeu os agentes económicos. A moeda única serviu como dique defensivo para as 16 economias integradas, que dentro da marina gozaram de estabilidade enquanto o mundo, incluindo os outros onze Estados membros, balouçava perigosamente lá fora na tempestade financeira. Apesar do muito que as economias do euro sofreram, foi muito menos do que suportariam separadas. Que confiança teriam os nossos credores se nesta turbulência ainda vigorasse o velho escudo?

Esta pergunta conduz-nos ao segundo elemento. É que se nós ainda tivéssemos uma moeda própria nunca nos teriam emprestado os montantes que agora nos sufocam. Ou seja, Portugal com o escudo (ou a Grécia com a dracma) há muito teria sido forçado a corrigir o seu desequilíbrio. Deste modo, se o euro constitui uma indiscutível segurança no meio da crise, foi essa segurança que permitiu a dimensão dos erros cometidos nos países que agora ameaçam o euro. Confiantes nas águas calmas dentro do molhe monetário, algumas economias acumularam tanta dívida a bordo que estão em maior risco de afundamento que muitas das que lá fora sofrem a borrasca.

Foi o euro mal concebido? A moeda única incluía à nascença um mecanismo para evitar precisamente este tipo de miopia. Lembra-se do Pacto de Estabilidade e Crescimento de 1997, que há uns anos era moda ridicularizar? Os tectos de 3% do PIB no défice do Estado e 60% na dívida foram considerados rígidos, simplistas, exagerados. Romano Prodi, presidente da Comissão, chegou a considerar o Pacto "estúpido" (Le Monde, 17/Out./2002). Por isso, em Março de 2005, o Conselho Europeu reformou as regras, passando os tectos a vagos valores indicativos. No ano passado, Portugal teve um défice de 9,4% do PIB, a Grécia atingiu os 13,6% e a Irlanda 14,3%. Indicativos?!

Os autores do euro tinham, pois, perfeita consciência de que a solidez da moeda única criaria uma enorme tentação para os esbanjadores. Por isso os tinham manietado com o Pacto. Era sem dúvida um método rígido, simplista, exagerado. Até se pode considerar estúpido. Mas era também, como se vê, eficaz. Levantada a rigidez, o euro ficou muito mais frágil.

E agora? A Europa ou ajuda os gastadores ou a união é desfeita. Mas, ao premiar a irresponsabilidade com mais apoios, o que garante que os dissipadores não vão aproveitar esse aval para continuar o delírio? Afinal, foi isso que fizeram com a segurança à entrada no euro. É verdade que serão vigiados pelos parceiros. Mas esses parceiros são os que irresponsavelmente os libertaram do Pacto e diziam vigiá-los em todo o tempo em que se afundavam em dívidas.

Desde o princípio deste ataque havia uma solução simples: obrigar os faltosos a ir ao Fundo Monetário Internacional. O FMI tem uma grande vantagem: é estúpido. Constitui uma espécie de Pacto de Estabilidade portátil para impor a países abusadores. Infelizmente, surgiu o orgulho de clube. Parece que na sofisticada marina do euro é indigno que entre a polícia marítima. Mas tolices e hesitações no meio duma tempestade é que são mesmo muito estúpidas.

No fim, a solução foi criar a 9 de Maio um ainda vago "mecanismo de estabilização financeira", espécie de Fundo Monetário Europeu, subindo os muros do molhe. Mas o problema de fundo não está aí. Anunciaram-se os milhões mas não a disciplina. O mecanismo só impedirá o afundamento dos gastadores se incluir a dureza orçamental do FMI ou do antigo Pacto. Ou seja, se for estúpido.

O euro só sobrevive com métodos rígidos, simplistas, exagerados. Ou seja, métodos financeiros, recusando as subtilezas irresponsáveis dos políticos.


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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 17 de Maio 2010

 

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