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O grande Elias

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por João César das Neves*

Os políticos, como os actores, centram a actividade na representação. A grande diferença é que, depois de terminarem a sua carreira, têm em geral sortes opostas. Enquanto as representações memoráveis dos grandes filmes vão ganhando fama à medida que o tempo passa, as ilusões dos políticos ficam mesquinhas com a distância.

Isso explica a grande distinção entre duas personalidades portuguesas de primeira linha que seguiram trajectórias paralelas na sua carreira. Porque, se virmos bem, o consulado do senhor Primeiro-Ministro José Sócrates (1957-...) acompanhou, passo a passo, as principais personagens da grande estrela do nosso cinema antigo, António Silva (1886-1971).

Na campanha eleitoral de 2005 e nos primeiros meses após tomar posse como chefe do Governo, Sócrates tomou a atitude digna e severa do alfaiate Caetano de A Canção de Lisboa (1933). Sempre muito imparcial e desinteressado, criticava o Vasquinho da Anatomia (na circunstância o Dr. Santana Lopes, antecessor no cargo) como cábula e estroina. Acima de tudo, estava indignado por ele namorar com a filha, a costureirinha Alice (o povo). Entretanto, com "a máxima imparcialidade" manipulava a seu favor o resultado da eleição da rainha das costureiras da Academia Recreativa Dr. Barbosa Girão: "então um bocado de hino, façam favor, sim?". De facto, as promessas solenes de nunca subir impostos foram logo renegadas, aumentando o IVA. Afinal tudo não passava de um truque para poder "comer o dinheiro às velhotas", as tias de Trás-os-Montes.

À medida que o tempo passava o senhor Primeiro-Ministro, genial comediante, mudou de pele e foi aparecendo como o senhor Anastásio de O Leão da Estrela (1947). Eterno optimista, fazia promessas inauditas: plano tecnológico, reforma da administração, saúde e educação, energias renováveis, tudo ia ser possível: "O Peyroteo chuta no Terreiro do Paço e mete golo no estádio do Lima." Além disso defendia os seus partidários com todo o fanatismo: "Se é leão é um homem de bem." Com ele a democracia ganhava novos cambiantes: "Eu trato o meu semelhante de igual para igual: o que é meu é meu, o que é teu é nosso."

Quando se começou a ver que as reformas afinal não aconteciam, e além disso os jornais descobriam escândalos sucessivos, houve nova mudança, desta vez para Simplício Costa de O Costa do Castelo (1943). Versejador, professor de fado, caloteiro sempre optimista, era imparável: "Quanto é que você aposta/que o povinho até se afasta,/quando vir passar o Costa/a correr com esta pasta?". Os seus planos e projectos eram como a da compra da telefonia de 300 escudos: "'Vendia-ma por 400. Eu dava-lhe 20 escudos semana sim, semana não. Na semana sim, que eu não pagaria, ficava para a semana não. Sim?' 'Não!'."

Chegou-se finalmente ao momento decisivo. Em Setembro de 2008 o mundo caiu na maior crise do nosso tempo, que finalmente revelou José Sócrates na sua real personalidade. Ele é O Grande Elias (1950), o supremo aldrabão. Os seus esquemas são todos infalíveis. Foi à Europa e disse: "'Vamos fazer uma vaca de cem escudos. Tu dás os cem escudos'. 'E tu?'. 'Eu dou o palpite que vale três contos e quinhentos. Achas pouco?'". Assim os gastos iam subindo. Eram auto- -estradas, PPP, aeroporto, TGV, tudo ideias excelentes que sorviam cada vez mais verbas: "'200 contos!? Mas para que é que foi tanto dinheiro?' 'Outra ideia do Elias. Disse-me que era para uma fábrica de botões'. 'E que fizeram aos 200 contos'. 'Ora, abotoaram- -se com eles'." Só que infelizmente, ao contrário do filme, no final a tia do Brasil (que neste caso era alemã e chamava-se Ângela) não o quis salvar.

Tudo acabou, nos últimos tempos, como o Evaristo droguista de O Pátio das Cantigas (1942), julgando-se superior aos vizinhos, sempre ofendido porque acha que ninguém o entende. É gozado por todos mas mantêm uma sobranceira indignação perante as incompreensões. Acima de tudo, fica "dessincronizado" quando lhe gritam "Oh Evaristo, tens cá disto?". Porque já só terá aquilo que lhe emprestarem.


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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 9 de Maio 2011

 

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