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Quinta-Feira,�21 deSetembro,�2017

O poder do imaginário

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por João César das Neves*

O colapso do Grupo Espírito Santo gera inúmeros impactos na sociedade e na economia. Mas os intangíveis são maiores que os concretos.

O choque económico é evidente. Primeiro a perda de valor, empregos e actividade, junto com enorme rombo financeiro a investidores e credores. Depois as mudanças estruturais, não só no sistema financeiro, pela venda do banco, mas na saúde, viagens e turismo, agricultura, energia e outros sectores com presença marcante do Grupo. O rol de transformações ainda mal começou.

Estes aspectos decisivos ficam quase omissos ao lado do incêndio provocado no imaginário nacional. O tema tornou-se obsessivo, invocado a cada passo para confirmar raivas, medos ou especulações. Embora, na verdade, ele desafie as ideologias, negando tanto o mito liberal de infalibilidade dos empresários como, por isso mesmo, a perversa omnipotência capitalista apregoada pela esquerda. Se fosse todo-poderoso não teria caído.

No meio das tolices, as emoções justificam-se pelo vasto drama humano envolvido. Só que, também aqui, o elemento subjectivo toma precedência. O imaginário empola, exagera e generaliza o caso GES, lançando suspeitas e quebra de confiança sobre toda a banca e economia. Demorará muito até normalizar as relações comerciais, mesmo entre empresas sólidas.

O poder do imaginário domina ainda o núcleo central do drama. Há dias Ricardo Salgado e familiares eram bajulados e seduzidos, caindo de repente no vitupério. Shakespeare descreveu bem este patético tombo súbito de eminência em Ricardo II ou Rei Lear. Aliás os Espírito Santo constituem aqui um caso especial, tendo vivido dois cenários paralelos em gerações consecutivas. Com uma decisiva diferença subjectiva.

Em 1975 o Grupo foi nacionalizado, os líderes encarcerados e todos exilados. O único clã bancário português parecia extinto; mas regressou e, passados 40 anos, defronta novo colapso. As condenações populares abundam, mas ainda é cedo para determinar os contornos da falência, quanto mais fechar balanços. No entanto, em termos estritamente financeiros, a situação é melhor do que o esbulho anterior. Se conseguiu renascer da estocada de 1975, deveria ser possível reconstruir o Grupo, se não existisse um aspecto subtil.

Nos anos setenta a família, apesar de expropriada, reteve algo decisivo, o prestígio e a credibilidade, aliás pivot da futura recuperação. A longa tradição banqueira, iniciada em 1869 na «Caza de Cambio» de José Maria do Espírito Santo Silva (1850-1915), permitiu manter contactos e fazer parcerias. Assim sobreviveu no exílio e, a partir de 1986, começou a recuperação do que seria um lugar central na economia portuguesa. É precisamente esse valor abstracto que está agora em xeque.

A queda, desta vez, não se deveu à agressão política mas a falha de competência e carácter. A cadeia será mais pesada. O Grupo até pode ressurgir; não o nome. Há pouco tão influente, essa marca pessoal está indelevelmente ligada ao maior escândalo financeiro português. O futuro grupo, se existir, dificilmente será Espírito Santo.

O poder do imaginário não espanta, pois a economia é humana. Isso tem sido evidente nesta longa crise. As habitações americanas sempre foram o que ainda são; mas durante anos muitos acreditaram que os seus preços iam subir; e subiam mesmo, ganhando todos. Por cá as sucessivas promessas políticas de direitos e benesses acessíveis empolaram, também elas, uma prosperidade temporária. A culpa do engano não é de especuladores ou políticos, pois estas fantasias só pegam se todos acreditarem.

A crise, revelando o poder da subjectividade, mostra também a vitória da realidade. A bolha do subprime acabou por rebentar, como a nossa euforia orçamental terminou na austeridade da troika. Também o caso GES, aguentado tanto tempo em ficções, manifesta a força real da economia. Por isso, após as euforias e ilusões de grandeza, é preciso agora recusar depressões ou fúrias também contagiantes e auto-sustentadas. Como o imaginário tem poder, o valor supremo deve ser a cabeça fria.

 

 

 

naohaalmocosgratis (at) ucp.pt


*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.


 

Publicado no Diário de Notícias dia 25 de Agosto 2014

 

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