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Quinta-Feira,�14 deNovembro,�2019

O tiranete do Funchal

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por João César das Neves*

A horrível tragédia da Madeira trouxe à nossa atenção a figura de Alberto João Jardim, personalidade incontornável, de novo com uma tarefa decisiva. É bom analisar e reavaliar a sua carreira.

Mas que há a avaliar? Não está o veredicto sobre Jardim feito há muito? Não definiu a inteligência nacional há décadas uma opinião negativa sobre o tiranete do Funchal? Aliás, não confirma esta catástrofe essa opinião, tendo as obras faraónicas da ilha potenciado a catástrofe?

Para aqueles, e já não são muitos, que ainda acreditam que vivemos num país livre, essa resposta não satisfaz. Aos que confiam na sua inteligência para fazer juízos, e não em jornais ou preconceitos estabelecidos, a figura de Jardim é interpelante. Claro que nos dias que correm acreditar que existe liberdade de expressão e pensamento em Portugal é arriscado. Pode dizer-se o que se quiser, mas estas situações mostram como a opinião pública pode ser intolerante e despreza quem não repete aquilo que "toda a gente sabe". Descobrirá isso se disser algo de novo sobre aquecimento global, bónus dos banqueiros ou a classe intelectual.

Alberto João Jardim é, objectivamente, o político português mais bem-sucedido da actualidade. Não só completará a 17 de Março 32 anos num lugar cimeiro do Estado, mas conseguiu aí um sucesso espantoso. Quando assumiu o cargo, a Madeira era uma das zonas mais pobres do País. Hoje é uma das mais ricas. Segundo os dados da União Europeia, em 1995 estava abaixo de Lisboa, Algarve e Alentejo, pouco acima do Norte, com um nível de vida a 65% da capital. Em 15 anos, segunda metade do seu mandato, ultrapassou de longe os concorrentes para se situar em segundo lugar nas sete regiões do País, com 92% do nível de Lisboa e vale do Tejo. Qualquer político, de qualquer cor, gostaria de apresentar resultados destes.

As críticas habituais têm fundamento evidente. A sua prestação financeira é muito grave e irresponsável e nós todos pagamos a popularidade dele. Mas a culpa disso é mais dos ministros das Finanças nacionais que de quem se aproveita deles. Existe inevitável compadrio e acomodação na ilha após tantos anos no poder. Mas nunca ninguém lhe apontou pessoalmente o menor indício de corrupção, o que não se pode dizer de muitos dos críticos. E até teve a sensatez de nunca se tentar a voos mais altos. Não há dúvida que a gestão de Jardim tem enormes vícios, atropelos e problemas, que ele aliás não esconde, ao contrário dos demais. Os resultados eleitorais, porém, mostram o apoio de que goza. E não se diga que isso é como Chávez, Castro ou Mugabe. Por muito que se critique, Madeira é Portugal, não Venezuela ou Cuba, e a democracia funciona. Prova disso é que mais ninguém consegue os resultados de Jardim. Nem certamente o seu sucessor.

Mas não terão sido as suas obras públicas, motor da popularidade, em grande medida responsáveis por este desastre? Pior ainda, não vai a reconstrução servir para promover precisamente os mesmos que as fizeram? Não existe aqui uma grotesca farsa, onde a fúria dos elementos salva o ditador da decadência?

Se quisermos ser justos vemos que a tempestade seria sempre devastadora. É verdade que as imprudências no ordenamento do território aumentaram a desgraça. Se uma terra se chama Ribeira Brava, não admira que as águas a levem. Mas aqui existe um erro económico, pois é preciso contrabalançar o actual acréscimo de estragos devido às obras com os benefícios que elas tiveram durante décadas. Preferiam os madeirenses ter vivido sem as infra-estruturas para agora, perante a tempestade incomparável, ter melhor escoamento de águas?

Alberto João Jardim é, e será sempre, controverso. O seu principal valor está em ter conseguido uma carreira política invejável sem vassalagens a opinadores, preconceitos e dogmas culturais. Num tempo de políticos de plástico, é refrescante ver um homem de carne e osso, com defeitos e qualidades patentes, não temer ser o que é perante esta imprensa e sociedade, supostamente tão rebeldes, mas realmente tão moralistas.

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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 15 de Março 2010

 

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