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Razões para celebrar

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por João César das Neves*

Aproxima-se o dia 5 de Outubro e torna-se urgente encontrar razões para celebrar o centenário da revolução. O país merece mais que uma comemoração vácua e farfalhuda ou, pior, um magno embuste. Existirá algum motivo sólido e razoável para fazermos a festa daqui a cinquenta dias?

A justificação não pode vir dos próprios acontecimentos da data. Os factos e actos desse dia foram caricatos e lamentáveis, mais deprimentes que inspiradores. A Monarquia não caiu; limitou-se a não se levantar. A República portuguesa, a terceira mais antiga da Europa, nasceu por omissão.

Quanto ao significado da mudança, é melhor nem falar. O País vivia havia décadas em triste podridão, justificando amplamente a extinção do regime. Os vencedores de Outubro conseguiram o impossível: tornar saudosa a anterior podre tristeza. Saltaram da frigideira para o fogo. Por muito que os esforços celebrativos o tentem esconder (e os republicanos nostálgicos são mestres em fraude, sobretudo histórica), o regime que vigorou de 1910 a 1926, em especial nos sete anos até Sidónio, é forte candidato a pior catástrofe nacional da longa e acidentada História de Portugal.

Machado Santos, Afonso Costa, Bernardino Machado e toda a trupe que tomou o poder há cem anos parecia cuidadosa e pessoalmente escolhida para uma opereta político-cómica. Sobre o povo entusiasta e optimista desceu, como um enxame de gafanhotos, um vasto exército de incapazes, vingativos e oportunistas, de intelectuais pedantes a criminosos encartados. É espantoso tanto que encontraram para destruir em tão pouco tempo em país tão depauperado.

A seu favor diga-se que não foi tão assassina quanto antecipou a lúcida e acertadíssima previsão de Eça, 32 anos antes: "A república em verdade, feita primeiro pelos partidos constitucionais dissidentes, e refeita depois pelos partidos jacobinos, que, tendo vivido fora do poder e do seu maquinismo, a tomam como uma carreira, seria em Portugal uma balbúrdia sanguinolenta" (Eça de Queirós, Carta a Joaquim de Araújo, Newcastle 25/Fev/1878; in Notas Contemporâneas, Livros do Brasil, Lisboa, p. 33). Inicialmente faltou o sangue e sobrou a balbúrdia. Até se impor a entrada na Grande Guerra, que supriu o sangue. Nenhuma pessoa honesta e razoável pretenderá hoje celebrar este paroxismo de boçal inépcia.

Pior ainda foram as consequências. Depois de 76 anos de triste podridão liberal e de 16 de balbúrdia sanguinolenta republicana, o povo estava farto de democracia. O amargo caos da Primeira República gerou cinco décadas de ditadura. A lembrança dos anos republicanos foi o maior aliado ideológico de Salazar. O seu esquecimento, a maior fraqueza política de Caetano.

Hoje, após 36 anos da nova democracia, tudo isto é passado remoto. Mas nem assim a celebração fica justificada. O centenário cai em cheio numa crise que põe tudo em causa. Será que vale a pena festejar?

A história celebra-se pelo que nos traz. Em geral é a grandeza passada que beneficia, mas as grandes tragédias também geram heranças favoráveis. Para ter razões de festejar basta uma comparação serena e objectiva do Portugal em ambos os extremos do centenário. Somos um país europeu de pleno direito. Devemos isso, entre outras, à mudança de há cem anos. Não pelo que destruiu, mas pelo que ensinou sobre destruição.

Os erros do 5 de Outubro salvaram o 25 de Abril. Costa Gomes, Álvaro Cunhal e Mário Soares sentiam no pescoço o hálito dos republicanos. Em vez de construírem a sociedade ideal, contentaram-se com algo que funcionasse. E conseguiram realizar aquilo que falhou 64 anos antes.

Temos muito mal a dizer do regime que nos governa mas, apesar dos problemas, funciona. Somos um país europeu com crises graves, como os outros. As nossas críticas estão ao nível das de franceses, britânicos e espanhóis. É razoável celebrar hoje com digni- dade o centenário da República porque, após Abril de 1974, a revolução de 1910 frutificou em liberdade e desenvolvimento. Vivemos numa república estável, livre e serena. Excelente razão para celebrar.

 

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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 16 de Agosto 2010

 

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