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Quinta-Feira,�14 deNovembro,�2019

Saída à portuguesa

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por João César das Neves*

Os portugueses estão desorientados, perdidos, mesmo assustados e amargurados. A situação do País é grave, talvez até sem saída. Mas essa desorientação não vem da falta de ideias. Pelo contrário, há muitas respostas certas, algumas até boas. Mas uma boa resposta não é uma boa solução.

Há quem diga que a culpa é dos próprios portugueses. Este país não presta, nunca prestou e está em crise desde sempre; uma corja que não se governa nem se deixa governar. A baixeza e indignidade desta reacção nem merece comentário. Só desprezo.

No entanto, além dos disparates, existem excelentes análises. Uma das mais frequentes, que enche discursos e estudos técnicos, é que Portugal precisa de crescimento, tecnologia, produtividade, inovação. Isto é verdade, toca no busílis da questão, mas é totalmente ocioso. É como dizer que quem tem fome quer comida. Claro que se tivéssemos mais dinâmica as coisas seriam fáceis. A questão é como a conseguir. E, para lá de chavões vagos, pouco se diz sobre os meios de a obter.

Um segundo grupo fala de reformas sectoriais. Classe política, administração pública, mercado de trabalho, sistema fiscal, saúde, justiça, educação, tudo tem de mudar. Mais uma vez têm muita razão, agora com a vantagem de serem mais concretos. Mas, apesar de toda a sabedoria da análise, passam ao lado da questão. É verdade que se essas instituições cumprissem a sua função e não desperdiçassem recursos o País estaria melhor. Só que elas também funcionavam mal quando Portugal crescia e se desenvolvia. Nas épocas de sucesso nacional, períodos de grande transformação e dinamismo, também os ministérios, Parlamento, tribunais, mercados, hospitais, escolas tinham graves problemas, alguns maiores que os actuais. Porque, apesar de tudo, os serviços até melhoraram alguma coisa ao longo das décadas. Isso significa que, embora devamos enfrentar tais bloqueios, estão longe de ser decisivos.

Finalmente existem os que apresentam soluções directas. O que é preciso, dizem, é sair do euro, porque o desenvolvimento exige desvalorização. Ou proteger as empresas das importações, abandonando mercado único e União. Também há os que olham para os custos da protecção social e garantem que temos de acabar com o Estado-providência. Finalmente alguns optimistas confiam na solidariedade europeia e dizem que os alemães vão pagar os nossos direitos sociais.

Mais uma vez todas estas são excelentes respostas, cheias de razão, que resolveriam os nossos problemas competitivos e orçamentais num esfregar de olhos. Mas como engolir os seus custos? Iremos abandonar a aposta europeia, linha central da estratégia nacional? Destruiremos os mecanismos sociais que os portugueses aplaudem? Queremos ser uma semicolónia parasita da Europa rica?

Estas são, em linhas gerais, as principais respostas e soluções que vemos apresentadas para a crise nacional. Mas qual o caminho a seguir? Esse é fácil de encontrar, simplesmente tomando a verdade de tudo o que foi dito e juntando-lhe um pouco do velho bom senso lusitano. O que se fará é um bocadinho destas coisas, sem mudanças drásticas que resolveriam à bruta a questão, mas evoluindo a pouco e pouco até sair do buraco.

Os sectores sociais, Parlamento e ministérios, empresas e tribunais, hospitais e escolas têm de abandonar o facilitismo e os abusos recentes e ganhar mais seriedade no funcionamento; não é preciso desmantelar tudo e fazer de novo, mas cumprir o que se deve. As garantias e benesses sociais vão ter de ser reduzidas; sem acabar com direitos ou atropelar seguranças, mas racionalizando despesas e emagrecendo orçamentos. Não abandonaremos compromissos europeus nem esperamos milagres comunitários, mas temos de reduzir preços e salários, taxas e custos para conseguir competitividade. Há que subir um pouco os impostos e descer alguma coisa os gastos. E até teremos certa inovação e criatividade.

Como faremos isso? O susto e a necessidade já o estão a realizar. Foi assim que antes saímos de sarilhos bem piores. Com jeitinho. À portuguesa.

 

 

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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 13 de Setembro 2010

 

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