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Quinta-Feira,�14 deNovembro,�2019

Um problema simples

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por João César das Neves*

Portugal tem um problema simples: vivemos acima das nossas posses. A solução é também elementar: gastar menos. O endividamento anual, através do défice da balança externa, é de 10% do PIB. Isso não significa que cada um tenha de reduzir isso nas suas despesas, mas todos teremos de cortar alguma coisa. Não é o fim do mundo, só voltar a viver com o que vivíamos há dez anos. E não há volta a dar-lhe: desceremos quer queiramos quer não. Se descermos depressa será melhor. Se os ricos descerem mais, os pobres sofrerão menos.

Claro que há outras maneiras de compensar o desvio. Em vez de gastar menos, podemos sempre trabalhar mais. Ou melhor. Inovação e criatividade podem evitar- -nos grandes dietas. Na falta disso, a alternativa é ir vendendo as "pratas da família", numa decadência gradual e apática. Sem falar do perigo da espiral de juros, agravado pelas taxas penalizadoras que pagam os grandes caloteiros.

A causa de tudo isto é a antiga falácia de pensar que basta pertencer à Europa para viver como ela. Esta tolice, invocada desde a adesão em 1986, não foi levada a sério nos primeiros tempos. A Comunidade então era um desafio, não direito adquirido. Conscientes dos riscos, os nossos esforços viram-se recompensados. Nos primeiros dez anos, fomos o "bom aluno europeu", sempre no quadro de honra, convergindo com os parceiros.

Com o sucesso, a atitude mudou. O título de "marrão" passou a ser usado com ironia, mais como alcunha que mérito. O "bom aluno europeu" começou a cabular. Passado o último exame, ao entrar no euro, o antigo estudioso en-controu o meio para fingir que era mais europeu do que é: dívi- das a preço baixo. Temos já mais de 10 anos de bebedeira a crédito.

Na globalização actual essas ilusões pagam-se caro. Podemos pôr os olhos no nosso colega grego para antecipar a sorte que nos espera. Mesmo se a situação dele é muito mais ruinosa, as semelhanças são maiores do que queremos admitir. Afinal ele, sempre bem conhecido como o cábula da turma, foi ultimamente o nosso experiente companheiro de folias. Agora a factura foi-lhe apresentada e ameaçam fechar-lhe a conta corrente. Nos debates acerca das suas prestações o nosso nome é cada vez mais referido. Os taberneiros sabem da nossa camaradagem recente e começam a conversar sobre nós.

Como se disse, 10% do PIB é o buraco, e esse seria o corte imediato se nos fosse negado o crédito. Felizmente os nossos antigos pergaminhos, a pertença à União e ao euro concedem-nos alguma folga. Podemos adiar e fasear um pouco os sacrifícios. Mas temos de ser sérios nisso. Não podemos enganar nem enganar-nos: até saldarmos as dívidas estaremos debaixo da vigilância dos credores. E a sua paciência mostra-se crescentemente escassa.

A solução para os nossos problemas é, assim, fácil de formular. Infelizmente dois grandes obstáculos impedem a sua aplicação. O primeiro é a falta de clareza na admissão da situação por parte dos dirigentes. É espantoso como os principais responsáveis ainda resistem a abrir o jogo e assumir a evidência. As políticas de austeridade que avançam são sempre tímidas, ambíguas, disfarçadas. Continuam a tentar iludir dificuldades, arranjar desculpas, esperar soluções milagrosas, prometer almoços grátis. No Governo ou na oposição ninguém aparece a falar duro e a mostrar o custo inelutável.

O segundo obstáculo, agravado pelo primeiro, está na enorme dificuldade de divisão dos sacrifícios. Ninguém acredita que os custos estejam a ser partilhados justamente. Quem quer que sofra sente sempre que é o único e que muitos outros estão a fugir à restrição. Alguns até protestam ao verem os seus proveitos congelados, o que é mínimo face à dimensão do sacrifício necessário. O resultado é que muitos acabam por perder muito mais de 10% - de-sempregados, salários em atraso, empresas falidas, sectores em contracção -, enquanto outros se indignam por cortes menores, invocando que vivemos na Europa. Assim se atrasa o inevitável ajustamento.

O nosso problema económi- co é simples. Pena que poucos achem isso.


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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no DN dia 29 de Março 2010

 

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