Ouro e prata ainda podem multiplicar
A confiança nas moedas fiduciárias parece estar a ser gradualmente substituída por uma procura renovada por ativos reais que, ao longo da história, funcionaram como dinheiro e reserva de valor. Enquanto essa transição ainda não estiver completa, existe ainda espaço para ouro e prata subirem de forma significativa
PUBLICADO NO EXPRESSO ECONOMIA A 12 FEVEREIRO 2026
Há mais de duas décadas, quando iniciei a minha colaboração com a imprensa económica portuguesa, o consenso dominante era claro: o futuro pertenceria às moedas fiduciárias e aos ativos financeiros cada vez mais complexos. No entanto, em 2004, no artigo “A Prata vai ser Ouro”, publicado na revista Exame, defendi que a prata teria potencial para uma valorização superior à do ouro e que poderia tornar-se um dos melhores investimentos de longo prazo, precisamente por ser ignorada e estruturalmente subavaliada. Essa visão, então considerada excessivamente contrária, tem vindo a encontrar confirmação progressiva ao longo dos anos. Em 2008, nas páginas do Expresso, com o artigo “A Segunda Grande Depressão”, argumentei que, em contextos de estagflação e risco sistémico, o ouro regressaria ao seu papel histórico de reserva de valor. Ao longo da década seguinte, através do Diário Económico, do Negócios.pt e no bonsinvestimentos.com, que chegou a acolher uma das maiores newsletters financeiras em Portugal focada em metais preciosos, com milhares de subscritores, reforcei a ideia de que o ciclo do ouro e da prata não seria conjuntural, mas estrutural.
Hoje, em 2026, apesar da volatilidade significativa, especialmente na prata, o enquadramento macroeconómico e monetário continua a favorecer os metais preciosos de forma clara, embora não linear. Ouro: um ativo de biliões que regressa ao centro O ouro não é um nicho especulativo. Estima-se que existam cerca de 216 mil toneladas de ouro acima do solo, o que, aos preços atuais, corresponde a uma capitalização total superior a 30 biliões de dólares, tornando-o um dos maiores ativos financeiros globais. Os dados oficiais mais recentes mostram que, até ao final de 2024, o ouro ultrapassou o euro e passou a ser o segundo maior ativo nas reservas oficiais dos bancos centrais, ficando apenas atrás do dólar. Desde então, a tendência intensificou-se e, em janeiro e fevereiro de 2026, com o ouro a negociar por volta dos 5.000 USD por onça, várias análises e leituras de mercado passaram a sugerir que, em termos de valor, o ouro poderá ter assumido temporariamente a liderança das reservas globais, superando o dólar. Este movimento reflete a acumulação contínua de ouro por parte de países como China e Índia, a redução gradual da quota do dólar e a crescente desconfiança nas moedas fiduciárias, num contexto em que, como tem sublinhado Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, o ouro volta a afirmar-se como “dinheiro seguro” num mundo marcado por excesso de dívida, instabilidade geopolítica e erosão do poder de compra das moedas de papel, recomendando historicamente uma alocação de entre 10% e 15% em ouro em carteiras diversificadas.
Prata: volatilidade elevada e fundamentos sólidos
A prata mantém-se como o metal mais volátil do complexo dos metais preciosos. Essa volatilidade com subidas rápidas seguidas de correções abruptas faz parte da sua natureza, dado o tamanho reduzido do mercado e a sua dupla função monetária e industrial. Ainda assim, os fundamentos são difíceis de ignorar: vários anos consecutivos de défice físico, procura industrial crescente em setores como energia solar e tecnologia, e uma relação histórica com o ouro que permanece em níveis elevados contribuem para o potencial de valorização no longo prazo. Dados de mercado e projeções para ouro e prata Os dados históricos mostram bem a dimensão dos ciclos nos metais preciosos. O ouro registou o mínimo da década em março de 2020, em torno de 1.470 dólares por onça, tendo atingido em 2026 máximos acima dos 5.000 dólares, apesar de fortes oscilações ao longo do percurso. A prata, mais volátil, caiu para cerca de 12 dólares por onça em 2020 e alcançou em 2026 valores próximos de 120 dólares, seguidos de correções igualmente acentuadas. Estes movimentos confirmam que os metais preciosos não se valorizam de forma linear, mas em ciclos muitas vezes abruptos. Quanto às projeções para os próximos anos, embora devam ser sempre interpretadas com cautela, vários analistas reconhecidos apontam para intervalos de preço significativamente superiores aos atuais, refletindo não apenas fundamentos económicos, mas também uma possível realocação de capital à escala global. Para o ouro, um cenário conservador aponta para valores entre 6.000 e 7.000 dólares por onça no horizonte de 2026–2027. Jim Rickards tem referido cenários em que o ouro pode atingir 8.000 dólares ou mais num contexto de forte tensão monetária, enquanto Michael Oliver aponta para uma zona potencial entre 8.000 e 10.000 dólares caso a desvalorização das moedas fiduciárias persista. Em cenários mais extremos de stress financeiro e inflação prolongada, alguns analistas e modelos de longo prazo admitem mesmo valores na ordem dos 25.000 a 35.000 dólares por onça nos próximos 5 a 10 anos, assumindo uma profunda reconfiguração do sistema monetário internacional. No caso da prata, o cenário base situa-se entre 120 e 150 dólares por onça nos próximos anos. Se o rácio ouro/prata regressar a médias históricas, vários analistas admitem que a prata possa evoluir para a faixa dos 200 a 250 dólares, e alguns cenários de longo prazo apontam mesmo para valores acima dos 500 dólares por onça, sustentados por défices físicos persistentes e procura industrial crescente. Estes intervalos podem parecer elevados face aos níveis de 2025–2026, mas refletem a combinação de pressões macroeconómicas, subinvestimento estrutural e o facto de a maioria dos investidores institucionais continuar largamente subexposta aos metais preciosos. Potencial ainda subestimado por investidores institucionais Talvez o fator mais relevante seja este: a maioria dos grandes fundos, fundos de pensões e investidores institucionais continua com exposições muito baixas a ouro e a prata. Em muitas carteiras globais, o ouro representa menos de 1% dos ativos, e a prata é frequentemente inexistente. Isto indica que existe ainda um amplo espaço para realocação de capital, o que pode sustentar movimentos de preços significativos se essa mudança se intensificar.
Ações mineiras: potencial de alavancagem
Outro segmento com forte potencial são as ações de empresas mineiras de ouro e prata. Apesar dos preços elevados dos metais, muitas destas empresas ainda não refletem totalmente esses aumentos nas suas valorizações. Com custos relativamente estáveis e fluxos de caixa crescentes, as mineradoras podem oferecer efeito alavanca aos preços dos metais, transformando movimentos de metais preciosos em potenciais ganhos superiores para acionistas. Conclusão A confiança nas moedas fiduciárias parece estar a ser gradualmente substituída por uma procura renovada por ativos reais que, ao longo da história, funcionaram como dinheiro e reserva de valor. Enquanto essa transição ainda não estiver completa, existe ainda espaço para ouro e prata subirem de forma significativa. A mensagem central permanece simples: apesar das subidas e da volatilidade, ainda pode não ser tarde para quem procura preservar e potencialmente valorizar o seu património através de metais preciosos.